Estudar é promover pequenas revoluções – Por Michelle Barreto

Estudar é promover pequenas revoluções - por Michelle Barreto

"A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.” Paulo Freire

Ao ser convidada pela Ink Inspira a escrever sobre o dia do estudante fiz o exercício de buscar na memória minhas experiências pessoais e, surpreendentemente, me entendi como estudante, ainda que não estivesse de fato matriculada em alguma instituição.  

Segundo o site Audiovisual e Educação, para Paulo Freire o ato de estudar é “uma atitude em frente ao mundo”, uma vez que a relação leitor-texto é pautada através da relação da realidade cotidiana e prática de cada um, ou seja, tudo que está ao seu redor e faz parte do dia-a-dia. Sendo assim, a troca promovida pelas relações humanas são fundamentais para o intercâmbio de conhecimento prático, sendo este um fator fundamental para transformação da realidade de cada um. Assim, ainda segundo o portal, “o ato de estudar que se completa na atitude em frente ao mundo, nos convoca a nos posicionarmos de forma crítica, com compromisso ético e social.” 

Pensando nisso, reflito que muitas vezes associamos o estudo às instituições e não ao simples fato de se debruçar sobre um tema, assunto ou objetoE indo ainda mais além desse pensamento, o ato de estudar e aprender algo é comumente associado a adquirir conhecimento sobre algo, mas como se dá esse processo? 

Tenho certeza que você, leitor, ao ler esta pergunta teve em mente imagens de livros, bibliotecas, computadores ou outros dispositivos associados à organização de conhecimentos de forma concreta. Diariamente, me sento em meu escritório e antes de iniciar um novo dia de trabalho me debruço em tirar novas notas do trompete. O local não é o tradicional, o material de estudo não são livros e ainda assim me considero estudante. Em 2016, ao me graduar em Licenciatura de Artes Cênicas, escrevi um artigo no qual explorava a relação entre Arte e Cognição, nele busquei desenvolver um trabalho de compreensão da arte como uma área de produção e fruição de conhecimento que se dá não somente pela via concreta, mas também subjetiva, psicanalítica e do afeto. 

Neste dia do estudante, fico me perguntando sobre quem exatamente estamos falando: Do estudante da faculdade de direito – a primeira criada no Brasil em 1827? A criança que explora pela primeira vez as sílabas e vogais até dizer “mamãe”? A musicista que diariamente pratica seu instrumento instintivamente? O jovem que mergulha nos livros para finalmente passar no vestibular? A senhora que compra o jornal todos os dias para preencher as palavras cruzadas para manter a memória calibradaA catadora de lixo que escrevia seus pensamentos e cotidiano em cadernos que encontrava no lixo e posteriormente se tornou uma grande escritora? 

Acredito que de todos eles, exploradores, curiosos, insaciáveis, habitantes deste mundo que querem sempre mais, que não se contentam com um “não sei” e que, convenhamos, fazem desse planeta cada dia mais interessante e cheio de vida.  

Um salve a todos nós, que de alguma forma damos continuidade à história e espécie humana através dos estudos! 

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Autora: Michelle Barreto é atriz, gestora cultural e analista de projetos sociais na Ink Inspira. Atua há 10 anos com projetos sociais e culturais de grande relevância nacional. É Bacharel e Licenciada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Minas Gerais e Técnica em Artes Dramáticas pelo CEFAR (Fundação Clóvis Salgado).