O Presente é Feminino: Em sua empresa, diversidade é um produto ou uma política? por: Michelle Barreto

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”
Declaração Universal dos Direitos dos Humanos, 1948.

DIVERSIDADE é a palavra queridinha do momento, mas você já parou para pensar se as empresas estão levando a sério o propósito de ter em seu quadro de funcionários pessoas da comunidade LGBTI+? Mais que isso, após admiti-las elas de fato sabem respeitar as diversidades?

Quando fui convidada a escrever para a série de artigos da Ink Inspira com o tema “O presente é feminino” me veio o desejo de transformar a provocação em pergunta: O presente é feminino? Se a resposta for sim, que feminino é este ao qual nos referimos? Nele estamos incluindo as travestis e mulheres transexuais? Mesmo compreendendo que este não é meu lugar de fala, entendi esta oportunidade como uma janela para trazer este assunto à tona através do meu ponto de vista e a partir de estudos e depoimentos que tive acesso.

No Brasil, com as raras oportunidades de emprego, cerca de 90% das pessoas transexuais acabam recorrendo à prostituição. Estes dados apontam para um fator determinante na vida dessas pessoas e que as leva a este lugar: a exclusão do mercado de trabalho. Em consequência, a expectativa média de vida de pessoas trans no país é de 35 anos.

Em 2011, o Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU apresentou o primeiro relatório oficial das Nações Unidas sobre direitos humanos, orientação sexual e identidade de gênero. Nele foi possível evidenciar os padrões de violência e discriminação direcionadas à pessoas em razão da sua orientação sexual e/ou identidade de gênero.

O acesso ao mercado de trabalho está em pauta em todas as discussões quando o assunto é inclusão social de pessoas trans.

Novos tempos estão se aproximando e já é possível observar, em uma rápida busca por vagas de emprego, a seguinte frase: “A nossa empresa preza pela igualdade e valoriza a diversidade”. Ainda hoje não podemos afirmar se esta é de fato uma política adotada pela empresa ou se é mais uma estratégia de marketing para se enquadrar no grupo de empresas “cool” no mundo empresarial.

Vamos partir, portanto, para algumas questões que coletei através de depoimentos de pessoas trans inseridas no mercado de trabalho. Importante: Observe que não trarei aqui os detalhes do grande preconceito e constrangimento que milhares de pessoas trans vivem ao buscar um emprego. Busco neste momento dirigir a reflexão àquelas empresas que já compreendem a importância (ou ao menos aparentam compreender) do respeito à diversidade no ambiente de trabalho.

A empresa...

  1. Compreende a contratação de uma pessoa trans como a escolha de uma profissional e não como um “ato benevolente”?
  2. Adota o nome social da funcionária em todos os campos de identificação da mesma? (ex. crachá, e-mail, cadastro em sistema, etc.?)
  3. Traz esta inclusão para o âmbito de diálogo com os demais funcionários, orientando sobre respeito à identidade de gênero em todas as situações?
  4. Prepara os demais funcionários para agirem em caráter de contenção e repressão de qualquer tipo de ato discriminatório contra a funcionária trans seja vinda outros funcionários, parceiros ou clientes?
  5. Respeita e compreende as eventuais consultas médicas necessárias à uma funcionária transexual que esteja em processo de transição ou para acompanhamento?
  6. Valoriza financeiramente a funcionária de acordo com seu cargo e competências sem diferenciação com os demais funcionários equivalentes?

São diversas perguntas que atravessam este universo e todas muito importantes para compreensão do papel de uma empresa em relação à inclusão e diversidade. Se sua resposta foi sim a todas as questões, alguns passos importantes foram dados para alcançar este objetivo. Em caso negativo, é sempre tempo de modificar o parâmetro e buscar informações para que a ideia de uma empresa inclusiva e diversa realmente saia do papel.

Em 2013 foi criado o Fórum de Empresas e Direitos LGBT, que conta hoje com mais de 35 empresas em torno da busca pelo diálogo e a cooperação entre as empresas, com o objetivo de identificação da situação atual da empresa e a elaboração do plano de ação para chegar na situação desejada de inclusão e apoio, incentivo e promoção da diversidade LGBTI+ no mercado de trabalho. Para isso, foram elaborados 10 compromissos entre as empresas que podem ser lidos aqui.

É verdade que estamos falando de um trabalho árduo de sair do lugar de conforto em que as empresas se encontravam ao não lidar com estas questões, mas é certo também que estamos em um momento que não há como mais ignorar a situação de uma parcela tão significativa no país.

Para dar um incentivo final, deixo aqui um dado muito importante:

Um estudo realizado pelo banco de investimento Credit Suisse, com 270 empresas da América do Norte, Europa e Austrália, mostra que aquelas que trabalham com políticas globais para o publico LGBTI+ registraram um crescimento no lucro 6,5% maior do que concorrentes que não o fazem.

Se este artigo te fez interessar pelo assunto, deixo abaixo diversas cartilhas e manuais que podem contribuir para o primeiro passo de uma empresa que se enquadre nesse propósito. Boa leitura!

DIVERSIDADE: O que é e o que ela pode fazer pelos seus negócios?

Manual de Comunicação LGBTI+

Construindo a igualdade de oportunidades no mundo do trabalho: combatendo a homo-lesbo-transfobia.

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O Presente é Feminino
Por: Michelle Barreto.
Atriz, gestora cultural e analista de projetos sociais. Atua há 10 anos com diversos projetos sociais e culturais de grande relevância nacional. É Bacharel e Licenciada em Artes Cênicas pela Universidade  Federal de Minas Gerais e Técnica em Artes Dramáticas pelo CEFAR (Fundação Clóvis Salgado).