O Presente é Feminino: Brasil, o país do futebol? por: Nathalia Cipoleta

Brasil, o país do futebol... Mas só se ele for masculino.

Não é de hoje que homens ganham melhores salários ou são mais reconhecidos por seus feitos do que mulheres. Uma rápida pesquisa e uma chuva de estudos sobre esse cenário, em diversos setores da economia, aparecem. No mundo esportivo não poderia ser diferente.

Em muitos momentos do esporte é possível notar casos de diferenciação por gênero como, por exemplo, em premiações de atletas profissionais em campeonatos oficiais, salários de atletas na mesma modalidade (vide a comparação entre o salário da Marta, 6 vezes a melhor jogadora do mundo pela FIFA, e Neymar) e, até, no aporte de investimento aos atletas e desenvolvimento das modalidades.

Porém, esquece-se que, no Brasil, até a década de 80, mulheres eram proibidas de praticar alguns esportes graças a um Decreto-Lei da era Getúlio Vargas (nº 3.199/41). Por 40 anos mulheres foram impedidas de praticar lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão ou de praia, pólo aquático, pólo, rúgbi, halterofilismo e beisebol. Só com a revogação deste Decreto é que as mulheres começaram a apontar nesses esportes de maneira profissional.

Um bom exemplo para mostrar o quanto o futebol feminino está em fase de construção é que todo torcedor lembra dos feitos da seleção brasileira masculina desde muitas décadas atrás, porém, quando pensamos em futebol feminino, a primeira Copa do Mundo FIFA aconteceu apenas em 1991, poucos anos após a primeira convocação de uma seleção brasileira oficial formada por mulheres, em 1988. O primeiro Campeonato Brasileiro feminino só aconteceu em 2013, enquanto o masculino acontece desde 1971.

Foi somente este ano, 2019, que a CONMEBOL determinou que, para que os clubes brasileiros possam participar de competições como a Sul-Americana e a Libertadores, precisam ter times femininos constituídos, estrutura consolidada para treinamento e equipe juvenil feminina em desenvolvimento. Assim, garante-se que a modalidade receberá o mínimo de suporte técnico para seu desenvolvimento.

Mas no que nós, torcedoras e torcedores, podemos contribuir? Precisamos começar a consumir o futebol feminino como consumimos o masculino. Assim, mostramos para as marcas e possíveis investidores que ali existe um nicho de mercado potencialmente grande, que merece atenção e investimento. Ajudaremos também no impulsionamento para o desenvolvimento de novos campeonatos, nacionais e internacionais, para que os times femininos tenham onde competir, mostrando que o futebol feminino atrai, sim, o interesse do público.

2019 é ano de Copa do Mundo feminina, realizada na França e, pela primeira vez, será televisionada em rede aberta. Ela terá início no dia 7 de junho e vai até 7 de julho. O Brasil está no Grupo C, junto de Austrália, Itália e Jamaica. O primeiro jogo da nossa seleção será dia 9 de junho, contra a Jamaica. Já foi divulgada a lista das 23 convocadas, sendo que 7 farão sua estreia em mundiais. Nossa volante, Formiga, está mais do que confirmada no time e fará história: Esta será sua sétima participação em Copas do Mundo vestindo a camisa amarela. A preparação para essa competição acontecerá em Portugal, onde o time fica concentrado até o início dos jogos oficiais. Daí em diante, rodará a França para as disputas.

Precisamos aprender a valorizar o esporte feminino como valorizamos o masculino. Mulheres podem fazer tudo o que quiserem, inclusive jogar futebol tão bem quanto os homens. O reconhecimento da torcida pode alavancar a modalidade. Elas representam o Brasil com sua dedicação, trabalhando em condições totalmente contrárias as que a modalidade masculina proporciona aos atletas de elite. Muitas não possuem relação trabalhista com os clubes e precisam se desdobrar para manter a vida de atleta profissional. As que são realmente contratadas, vivem com salários muito inferiores aos dos homens, mesmo em países estrangeiros.

Nós, mulheres amantes de futebol, temos a responsabilidade de compartilhar essa batalha com nossas representantes no esporte. Incentive as pessoas do seu entorno a prestigiar o evento, torcerem pela nossa seleção e por nossas meninas. Vamos montar a ala feminina torcedora e, acima de tudo, apoiadora! Nós podemos!

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O Presente é Feminino
Por: Nathalia Cipoleta.
Engenheira ambiental, mestre em agroecologia e desenvolvimento rural, Analista de Projetos Sociais na Ink Inspira.